segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

ANO NOVO



Meia noite do dia 31 de dezembro. O céu ilumina  o coração das pessoas que se abraçam para comemorar a chegada do novo ano. Dentro da noite iluminada há a noite de cada um. E os abraços que a ameaçam são momentos de paz e terror.
Pessoas esperam por palavras vindas de outros alísios. Algumas voam com os ventos para camadas da atmosfera onde outros amores ainda vivem com pouca umidade. Elas reconhecem no céu os seus próprios desertos e praticam rituais para que chova e que haja a colheita.
Cada um mareja nos olhos os limites de suas camadas porque já não há mais superfície. Tudo já foi modificado e virou corrente. E também não há fronteiras. Mas ainda existem a água e a formação das chuvas para que existam os mares, os portos, as partidas e as chegadas.
Nem tudo evaporou. Ainda há a lembrança da vida dentro do momento e a expectativa do futuro. Talvez as palavras é que não façam sentido diante da chuva.
A inundação prorroga os minutos porque o tempo não passou com as horas. Caminha-se com medo dos abismos porque os terrenos são irregulares e pode haver  abalos sísmicos que são capazes de mudar  as marés e a trajetória dos ventos.
A mulher com a palma branca na mão olha para o céu a procura do solo. Talvez encontre abrigo, mas ela é limitada e o céu é infinito. Eles não se encontram. Então ela joga a flor no mar porque a flor é como a palavra, sempre quer dizer alguma coisa e o mar é receptivo em suas ondas paradoxais.
O homem bebe a saudade numa taça, bebe perguntas sem respostas e sente a tontura do amor não correspondido, a deserção dentro do peito mesmo que tenha tido outras vitórias. Essa batalha está perdida, mas vai ficar escrita na sua história. Ele se arma para dar o grito que sai fraco de sua garganta- Feliz Ano Novo!
A idosa olha o contador do tempo. Os fogos derramam sobre ela sua finitude. Cada ano é sempre menos futuro e ela tem que viver de conquistas antigas. Mesmo que haja o novo não  haverá tempo e seu corpo já não suporta mais as tempestades. Ela precisa da mansidão do mar. Então reza pedindo saúde porque conhece todas as orações da vida.

Os amantes se beijam na tentativa de amanhecer em silêncio. O céu apaga a promessa. Eles têm consciência de que até na felicidade há dor e vão embora de mãos dadas esperar outras viradas.

Imagem: Pilar Domingo
Texto: Gláucia Fortes
Rodada 48 invertida

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