quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

O Poder da Morte

O poder da Morte ilumina a festa. Do mais claro ao mais negro aposento. Nas feições de alguns convivas ainda agonizantes – por certo os de mais forte estrutura – a máscara inexorável do Tempo que se esgota. E a Dor, a Dor dos que urram dentro dos trajes grudados em peles escalavradas, feridas, arruinadas, peles de onde purgam fétidos odores. E o Terror, o Terror dos olhos que percebem o quanto de mortal sempre há de haver no perpétuo. Máscaras que caem. O relógio retoma as badaladas: dez, onze, doze... treze. Mas como? É agora a Morte que se volta, feições marcadas de horror. Quatorze, quinze... Repara que todos ainda jazem, inertes corpos um dia aflitos, mas o Tempo. O relógio insiste, dezesseis, dezessete... A força do Tempo. O Pavor da Morte. Ela ouve um tropel. Sai cambaleando pelos corredores, as cores dos aposentos misturando-se à sua passagem, do salão azul ao purpúreo, deste ao verde, do verde ao alaranjado, ao branco, ao roxo, ao negro, os pensamentos do mundo se misturando numa aquarela louca. Sem entender bem o que fazia, do que tinha medo, de repente ela pára. Ouve um silêncio conhecido, o silêncio da coisa que nenhuma coisa é, o silêncio da coisa que se transforma em puro silêncio. Ela alcança a porta de saída, se vê diante de um deslumbrante e acinzentado lago e, seca e firme, ela grita. 


Texto de Ana Cláudia Calomeni
Arte de Marcelo Damm, inspirada no texto.

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