quarta-feira, 19 de março de 2014

Bolinhos de chuva

            Irene nunca se entendeu comigo. Veio morar com minha família durante oito meses, quando sua mãe, que jamais conseguiu suportar a maternidade, viajou pra Austrália, sem data pra voltar. Tínhamos a mesma idade, 14 anos, diferença de exatos 89 dias entre nossos respectivos nascimentos, o que nos tornava absolutamente incompatíveis em termos astrais. Enquanto eu era ar, ela tinha os pés na terra. Mas na medida em que eu aterrissava, ela teimava em voar. Quando eu desistia de algo, ela queria prosseguir. Irene foi uma intrusa na minha vida, insondável e inescrupulosa. Quando eu pedia cupim com espinafre pro jantar, ela preferia filé mignon com arroz à piamontese. Eu queria pastéis de santa clara de sobremesa, e ela queria suspiros. Eu dizia que ela era cafona e não tinha bom gosto, enquanto ela me dizia que eu era egoísta e insossa. Nunca conseguimos nos entender. Ela tinha o sorriso mais agradável de ver, a voz mais suave de se ouvir. Tinha as palavras mais ferinas na ponta da língua, as respostas mais ousadas que podiam me conduzir às lágrimas em poucos segundos. Ao lado dela, chorei umas 45 vezes. Nos odiamos, chegamos às vias de fato, com hematomas nos braços e discussões que terminavam com fios de cabelos emaranhados entre nossos dedos. Com Irene eu descobri o que era ciúme - nunca senti tanto ciúme quanto naqueles oito meses em que ela dividiu o quarto comigo. Irene guardava segredos em cadernos que trancava com pequenos cadeados em forma de coração. Um dia consegui ler, entre suas letras tortas, meu nome perto das palavras “odeio”, “quando”, “por que” e “noites”. Fiquei durante dias montando frases na minha cabeça, mesmo tendo consciência de que jamais conheceria o teor exato do texto que ela havia escrito. Na tarde do dia 22 de setembro de 1998, recebemos um telefonema da mãe dela, dizendo que tudo estava dando tão certo por lá que Irene deveria fazer as malas e partir nos próximos dias. Ficamos juntas durante esta tarde, quase todo o tempo num silêncio que misturava constrangimento, amor e saudade. Sem nominar qualquer das sensações, preparamos bolinhos de chuva, aconchegadas na ideia de que sua mãe não suportava a condição da maternidade, e por causa disso o destino de Irene não seria tão definitivo quanto parecia. “Bolinho de chuva é o que de mais genial existe”, ela disse enquanto polvilhava canela nos docinhos, “é tão único, mas tão banal”. Este era o único ponto em que concordamos. A tarde foi inóspita e melancólica e, ao mesmo tempo, aconchegante, silenciosa e preenchida de tudo o que não dissemos uma a outra durante aqueles oito meses. Hoje, 14 anos depois, aguardo sua visita, com bolinhos de chuva nostálgicos e banais. E talvez, no meio da conversa, eu pergunte sobre seus cadernos trancados com pequenos cadeados.



Texto: Danielle Schlossarek
Imagem: Pacha Urbano

Rodada 48 - invertida



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