segunda-feira, 3 de março de 2014

Comi a ação e agora sou um ser renovado




Aquilo não se repetia sempre: o biscoito... - e sim minha insistência de entrar no quarto do Vô quando principalmente ele estava dormitando. Vovó dizia-me que está palavra era uma palavra de estórias fabulares. Que ela era utilizada por crianças hiperativas que precisavam ter freios quando tinham curiosidade demais por páginas brancas... E que coração de uma criança é feito de lacunas onde o escrever é ver o preenchimento do mundo. Por isso lacuna era a entrada da porta do quarto do vô quando estava aberta, isto devia ser umas duas horas, hora de depois do almoço. Hora de casa sem barulho, sem pés se mexendo, sem algaravia de palavras responsáveis. Ali era eu: a cara de assombração entrando com minha boneca no colo; um álibi ao ser flagrada se o que diria era - estava a imaginar uma estória para a Flor. Pois o vô está a dormi na cama de carvalho. Chego perto da beirada da cama onde tem um grade de madeira talhada e ponho minhas mãozinhas nas barras. A calma e a serenidade dele me deixa angustiada. Ouço coisas sobre o estado do corpo dele intercalado às vozes de comiseração de outros alguéns que vem vê-lo. Meu tio Bruno um dia quando me viu preocupada com o som e o sentido da palavra dita por estes alguéns, disse o seguinte: Toda vez que alguém almoça e quer frisar isso diz – comi a ação (almocei) e agora sou um ser renovado.
Vô João? Trouxe a Flor pra ter um pé de prosa com o senhor...   O rolo é uma merda, uma confusão, ou um filme daqueles que passam no cinema? Tio Bruno é projecionista. O Senhor sabia disso? Ele dorme na câmara escura; ele desenrola a voz, a fala e a ação de gente fictícia. O mundo do senhor anda meio sem cinema... O senhor precisa conversar com o Tio Bruno.
  Ela olha para o relógio que marca quinze minutos para as duas horas. Ela pensa que o tempo é uma narrativa mas quando entrou lá eram também quinze para as duas. Se o mundo não é mais aprisionado pela construção das horas... só nos resta a liberdade, um não reduto de espaço, um não corte de imagens, um não recorte de ausência... uma música.  O biscoito na mão. Só agora ela recorda que a mãe lhe deu um biscoito amarelo. Um biscoito de dia amanhecido, de geleia no pão, de leite esquentado. Ela recorda que foi ali naquele momento que pôs a Flor no colo e pensou “depois do almoço vou ver meu vô”.    


Texto: Fernando Andrade

Imagem: Paula Sancier

Rodada 49         

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