sábado, 29 de março de 2014

Rebotalho

Ela sabia que as horas, as de amanhã inclusive, eram um passado recente. Os minutos mais ainda. Ela queria pular aquele capítulo, chegar adiante sem saber onde, o impossível não se dá de imediato, só em parcelas. A luz do dia mudava, indicava o tempo desgovernado, ela sentia o peito como um rebotalho de carpintarias antigas, restos viscerais, vidro esmigalhado. Ela queria pular aquela parte também, as horas já não cabiam (nunca couberam) no calendário. O futuro e suas punhaladas certeiras. Ela queria se refugiar no passado, toca restrita, fermentada. Rasgou as folhas do calendário, agruras e rebotalhos no peito, nos olhos. Pragas mal formuladas. Ela sabia que as horas caminhavam frágeis, mancas, e naquele jogo calculista, o que lhe restava, o que mais queria, era a qualquer preço se esconder.



Texto: Vivian Pizzinga
(trecho do romance em processo de finalização)
Imagem: Magda Rebello
(Técnica: foto pintura sobre tela)
Rodada 48 Invertida

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