segunda-feira, 7 de abril de 2014

A santa no consultório




A santa um dia apareceu no meio de um consultório odontológico. A secretária quando entrou para o trabalho viu-a em cima de uma mesinha onde se colocavam revistas, estas por acaso tinham sumido. A pobre moça assim que olhou para a estátua pensou se tratar de uma santa milagreira. Teve neste momento um pavor de remove-la dali. Não era nem católica, mas sua vidinha era tão miudinha que pensou nas consequências que uma ação sua, mais propriamente suas mãos, poderiam ter numa posteriori.
Neste momento sentou na sua mesa, e algumas ideias associativas começaram a pulular dentro de sua cabeça. A mão era o último artefato do corpo. Engraçado ela ter utilizado esta palavra – artefato - uma combinação de concretude e imaginação artística. O seu chefe utilizava-a para obturar arrancar, extrair. Alguns pacientes porém diziam que ele tinha mãos delgadas. Alguns chegavam até mesmo ao delicado. Pensou numa tia sua que bordava desenhos em tapetes. E que a família toda dizia se tratar de tapetes voadores numa clara referência As mil e uma noites. O tapete não era colocado ao chão, mas nos sofás de casa e não era raro uma visita dizer que sua bunda estava tão bem colorida, ou desenhada.

Dali a pouco os pacientes começariam a aparecer. Iam perguntar? Mas o Doutor virou religioso? Em se tratando de convicção não saberia como apaziguar ânimos, nem a favor nem contra. Os mais descrentes poderiam até ir embora temendo uma mão “fraca” do Doutor. Alguns até gostavam de sentar naquela cadeira e padecer como se tivessem uns contatos com o purgatório. Mãos invisíveis, ou teias de vínculos não operáveis. Lembrou da “cura” de alguns médiuns botando as mãos sob a cabeça do doente. Mas quando foi levantar para esconder a santa, certa de que seria isso a fazer, lembrou de uma pintura que alguém que ela deslocando-se de ônibus, disse ter visto. Era um dia de Copacabana e provavelmente dia de praia, o portador do causo, e não mais da pintura, diz ter visto um rabo de sereia no mar de Copacabana. Até aí a reprodução de um fato pode afastar-se de um acabamento artístico. E que numa hora, uma bela senhorita levantou-se da canga por que seus filhos que tinham parado de jogar bola juraram ter visto o Mickey Mouse da Disney passar batido com uma bolinha de fresco bola.  

Rodada 50
Texto: Fernando Sousa Andrade    
Imagem: Fernanda Lefevre  

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