quarta-feira, 30 de abril de 2014

Três horas


Naqueles tempos, era por volta das três horas que eu me levantava, um pouco antes do café da tarde, e me dirigia, fingindo tranquilidade, à caixinha do correio. 

A palpitação que se insinuava na garganta, eu tentava ignorar, e respeitava meu ritmo letárgico de ficar na ponta dos pés, alcançar a caixinha, apalpar seu interior.

Quando eram contas, informes publicitários, campanhas políticas, eu bufava mais durante as tardes. E às vezes me dava soluço. Refluxo. Diarreia. Diarreia era muito comum.

Quando chegava a carta, minha velocidade se tornava um processo aleatório, e eu nem era capaz de perceber o passo depois do outro que me levava de volta para casa. O café era mais vibrante, a temperatura que ele fornecia à minha língua era mais densa, prenhe de contornos. O céu da boca amolecia de prazer.

Eu lia a carta, que era sempre de uma só página. Na letra, algum tremor que me emocionava. 

Quando terminava, corria para preparar o café, e a hora do café era a hora da releitura, de espichar os significados dentro de mim, extraí-los da carta e dispô-los, um a um, como objetos da minha sala, como almofadas novas sobre o sofá, como quadros na parede. Era o momento de produzir alguma saudade.

Depois eu cheirava a carta, deixava-a sobre a mesa, como o destaque necessário da minha vida. Até vir outra carta. Ele sabia que eu precisava de uma notícia com cheiro, com itinerário.

Minhas respostas, geralmente de meia página que eu demorava uma tarde para escrever, uma noite para reler, outra tarde para passar a limpo, minhas respostas talvez ele as esperasse sem café, sem ritual, sem almofadas.

E respondia no seu tempo. Naqueles tempos. Em que as cartas eram mensais.

Hoje, ele não me escreve mais.


Foto: Danielle Schlossarek
Texto: Vivian Pizzinga
Post Extra





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