segunda-feira, 14 de abril de 2014

um fim




às vezes penso que não me serviu de nada, ao fim e ao cabo, teu porta-retratos amarelo que me deste com tanto carinho no dia dos namorados. nosso namoro acabou, nossas vidas não se cruzaram mais, dividimos os amigos e os talheres: cada qual para seu lado. guardei-o, entretanto, apesar de inútil. sua foto de costas na parede da minha sala lembra-me todos os dias de que não quero mais vê-la. o porta-retratos, mosaico de fragmentos plásticos, deixa em mim viva a ideia de que a diferença entre um quebra-cabeças e um punhado de cacos de vidro não é nada além da disposição que as pessoas têm em encará-los como uma coisa ou outra. e a verdade desagradável e necessária que me olha de esguelha todas as noites sob o brilho torto das estrelas refletidas no vidro é a de que não importa o quão intensamente vivamos, a maior parte do que somos é só moldura.

Imagem: Igor Dias
Texto: Pilar Domingo

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