quarta-feira, 2 de julho de 2014

O AMOR NA COPA DO BRASIL


Estava no metrô voltando da casa de uma amiga quando percebi que ele me olhava. Tentei disfarçar mas seus olhos eram  ímãs e eu me encontrava derramada como pregos sobre a mesa.  Tinha acabado de terminar um romance e  vi naquele flerte uma possibilidade  de desvio. Sabia que aquele rio desembocava em mar distante  mas eu poderia fazer um pequeno passeio a barco em águas calmas num trecho definido e retornar com segurança. Apostei nessa hipótese, anotei meu telefone num papel surrado dentro da bolsa e entreguei para ele sem o menor pudor. Percebi com esse meu ato que tudo fica mais prático depois dos 35. Ele comemorou. Os amigos vibraram gritando dentro do vagão do metrô e eu já não me importava mais com discrições. Deixei essa parte  de mim com o Carlos junto com outras que eu não pretendo recuperar porque são pesadas e me impedem a caminhada.
Então, além de conhecer o Hernandez, eu também estava aprendendo a conhecer essa outra que era eu com buracos. Cheguei em casa, tomei um banho com a porta do banheiro aberta para poder ouvir caso o telefone tocasse. Depois, fiquei me olhando nua no espelho, observei meus desertos mas não fui indiferente a uma barriguinha, fruto  de alguma liberdade que eu usufruíra sem culpa ao longo dos últimos meses. Resolvi colocar um vestido preto tubinho.  Assim, disfarçava essa minha mania de tentar ser feliz o tempo todo. Não demorou muito o telefone tocou. Tentei falar em Espanhol e percebi que ele entendia bem Português, pois  quando eu esquecia alguma palavra e a pronunciava em português, ele respondia logo. Passei a falar em Português para facilitar as coisas. Marcamos um encontro para aquela mesma noite, e não nos largamos mais durante toda a copa. Eu convidei umas amigas para conhecer os amigos dele e saíamos em grupo. Todos os dias, tínhamos uma programação intensa e os jogos, assistíamos num  bar na Barata Ribeiro acompanhados sempre de muita cerveja.
De vez em quando, ele parava no meio de uma conversa onde todos discutiam um lance ou uma falta e ficava me olhando como se procurasse formas em nuvens. Eu me sentia tonta, desajeitada.  Então, ria para dissimular meus impedimentos e propunha um brinde ao Brasil na intenção de provocar uma discussão na mesa, o que gerava mais uma rodada de cerveja e dois brindes.
O  depois do depois de tudo era o encontro de duas nações esforçando-se para fazer parte de um único bloco, numa coalizão mas a paz é sempre uma ameaça de guerra e, inconscientes, travávamos nossa própria batalha, lutávamos com armas secretas para habitar o país do outro.
A copa acabou e como tinha que ser, trocamos nossas camisas. Ele me deu a do Messi e eu lhe dei a do Neymar. Troca justa.
Os amigos partiram primeiro. Hernandez  ficou mais três dias. Eu o levei ao aeroporto e dessa vez, ele que me deu um papel com seu endereço do skype.  Nos despedimos com um beijo longo e promessas de reencontros. Vi o avião partir e sumir entre as nuvens, joguei o papel na lixeira mais próxima e segui em frente.


Texto: Glaucia Fortes
Imagem: Magali Rios
Rodada nº 51 Invertida


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