quinta-feira, 24 de julho de 2014

PAI E FILHO



O pai tinha umas esquisitices vez em quando e ficava sem falar com ninguém. Cultivava aquele silêncio como quem não pudesse respirar pela boca, caso estivesse com as narinas trancafiadas para sempre e  o menino o olhava com curiosidade e angústia, coisas que ainda não sabia explicar. E quanto mais o pai mergulhava em suas vagas, quedando-se no fundo do s oceanos invisíveis, mais o menino construía maneiras para tentar salvar o pai daquele afogamento desmesurado e inexorável . Ambos sofriam e por assim ficariam até que o pai retomasse sua vida terrestre ou até que o menino conseguisse construir seus mecanismos de defesa, guindastes poderosos que trouxessem o pai à tona, o que nunca se seu por inteiro. Irremediavelmente habitantes de mundos distantes, já não fazia diferença para nenhum dos dois o que as lembranças e recordações poderiam acrescentar ou roubar de suas existências. E quanto mais o pai foi-se deixando levar pelas correntezas e marés, mais o menino erguia seus guindastes de salvar almas. Assim cresceram: um em profundidade, o outro em encantamentos. Qual foi para onde? Somente pai e filho um dia souberam a resposta.

Imagem: Magda Rebelo
Texto: Maria Emilia Algebaile

Post extra

Um comentário:

  1. Foto linda e texto fantástico que se completam de forma visceral.

    ResponderExcluir