quinta-feira, 17 de julho de 2014

TARDE DEMAIS

A porta da casa estava aberta, entrei correndo, sem saber bem por quê. Lá estava ela, sentada na poltrona perto da janela, os olhos arregalados parecendo querer enxergar além da plantação de alho poró que ela tantas vezes havia destruído quando destilava nas plantas o ódio que sentia por mim. Os braços pendiam como os de um boneco esquecido na noite. Ela se transformara em um corpo inerte; ela, que nunca pareceu precisar de afeto, ela, lá estava ela, o corpo abandonado, frágil, incapaz de ódio porque o sangue já não lhe corria mais nas veias, ela, que nunca teve capacidade para o amor, agora parecia implorar por ele. Me aproximei e a abracei. Consternada e dolorida, encostei a mão nos seus olhos, fechando-os com um carinho que nunca fui autorizada a sentir. Me ajoelhei aos seus pés e chorei pela mãe que nunca tive.  

Texto: Ana Cláudia Calomeni
Imagem: Magali Rios
Rodada 50

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