quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Sublingual

Ela achava que sabia. Podia jurar. Mas só naqueles dias descobriu o que era dor. Contava o tempo de um modo inaugural em sua vida. Quanto faltava para completar as malditas 12 horas, a próxima dose do remédio? Nunca olhara um analgésico com tanta gratidão, nunca quisera dois, três, cinco, múltiplos.
Sentia a presença do corpo latejando nas frinchas da pele, pensava, tenho um corpo, pensava, que horas são?, pensava, tenho mesmo um corpo, pensava, e não é que ele está aqui?, coincide comigo, em cada intervalo entre pele e músculo, entre sangue e osso, reconsiderava, mas não há intervalo, interstício, vão, é tudo um metal fibroso que insiste (insiste, insiste) em escalavrar meus tecidos, meus juízos, que vai estraçalhá-los (os tecidos, os juízos) de dentro pra fora (malditos, malditos).
Pensava, que horas agora? O relógio e sua cupidez pelo tempo, o relógio que não divide nada com ninguém.
O corpo em cima de mim, metálico, dentro de mim, fibroso, fora de mim, rascante.
Respirava. 
Pensava, quantos miligramas? Comprimido ou sublingual? 
Queria ambos, queria tudo.


Texto: Vivian Pizzinga
Imagem: Magda Rebello
Rodada 53 (Invertida)

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