segunda-feira, 17 de novembro de 2014

DEPOIS DE HORAS ou DAS COISAS ACONTECIDAS

DEPOIS DE HORAS

Estava no ônibus, o pensamento voando longe, e sem saber por que se lembrou de um monte de coisas não muito agradáveis que aconteceram com ele em diferentes épocas. Começou a rir sozinho. Rir da própria desgraça finda é uma terapia fantástica. E imaginou todos aqueles eventos ocorrendo sequencialmente, em uma sucessão de enrascadas, como no filme do Scorsese. A montagem não ficou tão boa, mas vamos aos fatos.

A história começa com um homem caminhando no Centro da cidade. Ele acessa o correio eletrônico pelo telefone e toma ciência de que um colega de trabalho fez uma enorme trapalhada que o envolve. Houve consequências de curto, médio e longo prazos a serem administradas com humildade e firmeza. Mas uma consequência de curtíssimo prazo se apresenta naquele instante. O homem literalmente se caga com a situação. É, o intestino o traiu. O que fazer? Andou o quarteirão mais longo de sua vida. Em passos curtos e prudentes, para evitar uma catástrofe maior. Até que encontra um restaurante. O banheiro era no andar de cima. Sobreviveria à escada? Bom, havia chegado até ali. Estava vazio e limpo. Verdadeiro milagre. Corta a cena.

Anos antes, outro emprego. Não gosta do que faz, nem do local. Mas tinha que ser sociável. É convidado para uma festa, e aceita como missão. Assim que entra na casa, procura o banheiro. Passando no corredor, é atacado por uma cadela. Os dentes furam a calça e atingem seu tornozelo. O homem protesta. Como deixam um cão agressivo solto na residência durante uma recepção? O namorado da filha da dona da casa se aproxima dele, bêbado e rindo. Diz que o animal estava apenas protegendo os filhotes recém-nascidos, a culpa era de quem passou perto. Engole a resposta, afasta-se e tenta esquecer o ocorrido. Pouco mais tarde, decide partir. O filho da dona da casa, interessado nele, pede para que fique. Coloca a mão em sua perna. Passa a ser deselegante. Gosmento. O homem se levanta, ele o segue. Entra apressado no carro. Não pega. Ele sorri: “Fica, eu te levo depois”. Não se sabe como, convenceu-o a empurrar o veículo. Pegou. Ufa!

E por falar em carro enguiçado, nessa mesma cidade o homem teve um grande problema com o seu. O motor caiu. É, isso mesmo. Como foi possível? O projetista do automóvel não tinha genitora. Os parafusos que sustentavam o motor eram afixados diretamente na carroceria. Com a trepidação, a rosca ia alargando. A solução definitiva seria retirá-lo, colocar parafusos mais grossos e fazer nova rosca. Mas ele optou por uma solução temporária, para não atrasar a viagem de retorno. Os parafusos seriam soldados na carroceria. Daria certo? Dois soldadores de uma das maiores empresas do setor disseram que sim. Tudo bem, eram bebuns, mas fazer o quê? Eles trabalham com afinco durante um bom tempo. O homem pega a estrada, umas duas horas até sua casa. Na metade do caminho, o motor despenca. Chega de madrugada, o carro se arrastando a quinze quilômetros por hora, e fazendo um barulho horroroso.

Ainda sobre carros. O homem sai do trabalho e, sabe-se lá por que, mesmo morando em uma agitada metrópole, se esquece de subir o vidro e ligar o ar-condicionado. E ainda era noite. Um convite para malfeitores. Nem bem anda um quarteirão e se encontra parado em um sinal. Presa fácil, entre o veículo da frente e o de trás. Aparece um sujeito com um fardo de biscoitos Globo e enfia seu corpo pela janela. Que absurdo, usar um patrimônio de nossa cidade pra roubar! O ladrão começa a gritar, descontrolado. Eles se engalfinham, os biscoitos compondo a cena. Nervoso, o homem acaba puxando a carteira. Lembra que está com um bom dinheiro que separou para viajar.  Pega uma pequena parte, o assaltante se satisfaz e vai embora. Não deixou nem ao menos um pacote. Quando chega em casa, o homem conta a história para a mulher. Ela se apavora, e ameaça passar mal. Ainda tem que acalmá-la.

Falando em mulher, teve o dia que começou com uma conversa logo cedo com a namorada, por quem ele era apaixonado.  Já desconfiava de como isso podia terminar. Seguindo o roteiro de situações semelhantes, ela diz que o homem é muito legal, que viveram momentos ótimos. Mas que tinha a impressão de que poderia encontrar alguém e viver algo mais intenso. Que situação, fazer o quê? O homem finge que está tudo bem. Sai dali e vai encher a cara. A pior coisa a fazer nesse contexto. Encontra amigos no final da tarde e vão para um bar. A noite mal começava e seu nível etílico era bastante elevado. Ele beija uma mulher do grupo. De repente, ela já está na sua casa. Então, ele falha. Nunca havia acontecido aquilo. Antes que protestem: daquela forma, nunca mesmo. Pois existem vários tipos de falhas. Algumas são amenizadas, como a do estado “meio barro, meio tijolo”. Ou, ainda, o clássico The Flash. Mas, daquela vez, não houve o menor sinal de vida mesmo. Corta a cena.

Um amigo convidou a turma da faculdade para ficar na casa de veraneio de seu tio durante um feriado. Programa bom e barato. Chegam à noite, cansados. O sujeito esqueceu a chave. Primeiro, revoltados, e depois, conformados, eles pulam o muro e se apossam do quintal com sacos de dormir e uma barraca de camping, modelo sepultura, sempre levada a tiracolo. O rapaz e um amigo ficam na barraca; os outros, ao relento. Demoram a dormir, conversando sobre vários assuntos saudáveis, como catalepsia. O jovem fica impressionado. Ao contrário do que sempre fez, decide dormir com a cabeça, e não os pés, virada para a saída da barraca. Tem um pesadelo de madrugada e desperta sobressaltado. Olha para o lado e vê o amigo, imóvel. Já morreu, pensa. A barraca sacode. Ele se levanta e não acha o fecho, quer escapar de ser enterrado vivo. Começa a se debater. A barraca desmonta. Seu amigo desperta, tenta acalmá-lo. Voltam a dormir. Horas depois, acordam encharcados: o quintal alagou. O sujeito também esqueceu a bomba d’água ligada.

Por falar em amigos, o que não se faz por eles? O rapaz é convidado para um casamento. O noivo era amante de um amigo seu, que era padrinho do casamento.  Situação complexa. Vai de trem, salta na segunda estação depois de um município da área metropolitana e pega um ônibus, que o deixa em uma clareira. Chega cedo pra festa e tarde pra igreja. Esperaria ali em frente. Mas não, um amigo que foi junto queria beber. Não adiantou argumentar que era perigoso. Entram em um boteco improvisado no meio do mato, com uma mesa de sinuca esfarrapada. Seu amigo pede uma ficha. Todos olham pra eles, mas retornam ilesos. Na casa, perguntam onde foram. Ah, mataram alguém ali outro dia. Corriqueiro. O bairro tinha sido palco de uma famosa chacina semanas antes. Mas a festa estava ótima, comida e bebida fartas. De repente, uns sete ou oito sujeitos entram na casa. O jovem pergunta se eram convidados do noivo ou da noiva. De nenhum dos dois, eram delinquentes locais que entravam em todos os eventos. Quando o rapaz pega a terceira jarra de chope, uma mão imensa a agarra. Um dos intrusos começa a discutir com o homem que servia, reclamando do atendimento. O jovem pensa que, se soltar a jarra, ele não vai respeitá-lo. Se puxar, ele pode se aborrecer.  Opta por ficar imóvel. Até que o invasor finalmente se afasta. O homem do chope diz para o rapaz não ir embora, tem algo importante pra dizer. Medo. Algum tempo depois, esclarece: abririam um novo barril depois que aquela gente fosse embora. Corta.

O samba estava bem animado. O homem encontrou um amigo lá, e beberam todas. Na hora de ir embora, o sujeito quer deixá-lo em casa. Ele agradece, mas não havia necessidade. O amigo insiste. Cara bacana, tudo bem. Só que ele acaba perdendo duas saídas da falecida Perimetral, e acaba na Avenida Brasil. Uma cena curiosa: dezenas de carros parados com as luzes acesas. Era a Lei Seca. Os motoristas encostavam um pouco antes, esperando a blitz acabar quando raiasse o dia. O homem sugere ao amigo que peguem uma paralela. Seguem pela via larga de paralelepípedos, escura e deserta. Quilômetros depois, um caminhão manobra. Um garoto de uns quinze ou dezesseis anos surge no meio da rua, com um fuzil na mão. Apontado pro carro. O filme da vida passou. A sorte é que eles tiveram presença de espírito. A velocidade diminui, a luz é ligada, os braços pra fora. Explicam a situação, nervosos, e pedem ajuda. O menino parece se solidarizar. Diz pra seguirem mais uns três quarteirões e virar a esquerda, pra retomar a estrada.

Mas ele também curtia um programa em família. Teve aquela vez que foi ao hotel-fazenda com a filha pequena. Uma programação intensa para ela, um tédio total para ele, cortado por alguns momentos na piscina. Pensou que o jogo fosse uma boa ideia. Afinal, pediram pra ele completar o time. Com quinze minutos, dá uma arrancada do meio de campo para tentar o gol. Ia bem, até que cai antes da pequena área. A dor era enorme. Lembra-se de quando perdeu o primeiro menisco. O jogo para, ele diz que precisa sair. Insistem para que fique. Acaba indo, mancando, pro gol. Defende a primeira, pura sorte: bastou esticar os braços. É aplaudido, se anima. Então, um sujeito parte do campo adversário com uma velocidade incrível. Passa por um, dois, chega à grande área. Com uma expressão de ódio, prepara o chute. A bomba pega em cima dele. O dedo mindinho da mão direita vai todo pra trás, e volta deformado. Que dor. Para o jogo de novo. Um cara vem com um spray pequenino. Diz que é da FIFA, e que ele pode continuar a jogar. Ele pensa em responder, mas fica quieto. Corta.


Décadas antes. O jovem estuda em uma escola das forças armadas, no final dos governos militares. Fez grandes amizades, mas não tinha a menor vocação. Pede baixa, e na hora de sair coloca um broche do Che Guevara. Somente um idiota o faria. Ou um adolescente. Prestes a deixar o quartel, um tenente simpático vem cumprimentá-lo. Ao perceber o adereço, o homem se descontrola. Grita algo sobre segurança nacional e o leva até a sala do comandante. Chegam outro oficial e um sargento. Sabe quem foi esse homem? Você faz parte de algum grupo subversivo? Onde conseguiu esse broche?  – disparam. Não, senhor. Comprei no camelô, achei que fosse um cantor de rock – é a resposta cretina. O interrogatório dura uns trinta minutos. O rapaz é liberado, mas só relaxa dias depois. Colégio novo, acaba na mesma sala de aula que a sobrinha desse comandante. Mundo pequeno. Conta a história a ela e cobra o broche, brincando. Surpreendido, vê chegar a sua residência um envelope timbrado. Continha uma caixa de fósforos da marca Olho. Dentro, um broche do Che Guevara.


DAS COISAS ACONTECIDAS

Desaperreio e desdou
As voltas que o mundo dá
Sou cabra gente de fato
Difícil de segurar
Pois preste atenção, seu moço
Nas coisas que eu vou contar
Fiz coisa que Deus duvida
Que nem dá pra acreditar
Mas juro que foi verdade
Vou contar pra arrepiar

Eu bebo e te aconselho
A acreditar também
E, se não bebeu, que beba
E me olhe bem nos olhos
De joelhos dizendo amém

Sou valente, encaro onça
Mas de medo já me borrei
E não foi a primeira vez
Nem a última será
Foi por causa de dinheiro
Um motivo muito caro
pra qualquer um se borrar

Já fui mordido por cão
Paquerado por machão
E escapei das encrencas
Por pura sorte ou destino
Pois sem dar explicação
Eu sempre encontro saída
Sou assim desde menino

Já tive carro enguiçado
E pra aumentar a confusão
O motor caiu na estrada
Causando muita aflição
Mas tudo tem sempre um jeito
Sou ou não sou sortudão?

Tive briga com a mulher
E uma praga deve ter rogado
Vou contar com uns detalhes
Me diga se estou errado!
De cara cheia flertei
Com outra moça num bar
Cantei e levei pro canto
Pra mode nós se aninhar
E aconteceu o inesperado
Alguma coisa falhou
Eu nunca tinha falhado!!

Já pensei que tinha morrido
Entrei no casório errado
E pra escapar da Lei Seca
Dei de cara com o perigo
Mas de tudo acho graça
Porque lhe falo, meu amigo
Sempre aprendo alguma coisa
E fica o dito pelo não dito
  
Quebrei dedo em futebol
No amor quebrei a cara
Fiz onda com militar
Fui salvo por Che Guevara
A sorte sempre ao meu lado
Nunca me desamparou
Se sofri, também fui  alegre
Em nome de Nosso Senhor

Depois das coisas vividas
Agora posso sonhar
E se acreditam ou não
Não vai me influenciar
Do que vivi faço prova
O tempo não me deixa mentir
Pois as coisas que estão vivas
Da mente não deixo fugir

Se aconteceu ou não
Isso ninguém vai saber
Mas digo de peito aberto
Que se não aconteceu
Esteve bem perto de acontecer


Texto: André Calazans e Maria Emilia Algebaile
Post Extra, inaugurando dupla escritor-escritor para explorar outras possibilidades artísticas 


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