sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Câncer de pele




Você acorda, você confere o relógio, você toma um café, bota um pouco de açúcar, mais um pouco de café, você contabiliza três xícaras, vai parando aos poucos de bocejar. Então se levanta, vai ao banheiro, liga o chuveiro, sente a temperatura da água. Você entra debaixo da água, lava bem o cabelo. Se seca, sai do banheiro, olha mais uma vez para a garrafa térmica, pondera, mais um café, mais açúcar. O calor faz com que você ligue o ventilador na sua cara. Você se dá conta de que é sábado, você imagina seus amigos na praia, você imagina a preguiça que eles compartilham, as risadas, a temperatura fervente da areia. Você não tem folga aos sábados. Abre o armário, tem que escolher a roupa, mas não há muitas. Você penteia o cabelo, passa o batom, a maquiagem, olha pela enésima vez a garrafa térmica, será que toma mais um café? Olha também o relógio, boceja mais uma vez, é preciso sair de casa, no ponto a fila a esperará impiedosamente, você vai aguardar o próximo ônibus para poder ir sentada. Seus amigos devem estar estendendo as cangas, alugando a barraca, fazendo piadas, há alguém já com uma latinha de cerveja na mão. Você não. Você não está com eles. Você sequer queria estar na praia. Você se contentaria com uma cama, um travesseiro e um ar condicionado, as cortinas fechadas. Mas você tampouco tem isso. Não tem a praia, não tem o sábado, não tem ar condicionado, não tem o tempo. O tempo não é seu. Você não decide o que fazer dele. As parcelas de tempo que lhe são concedidas são uma verdadeira raridade, e é incrível que, quando isso acontece, você seja capaz de certa euforia. Porque aí você até pensa que decide o que fazer do seu tempo. Você se convence de que a decisão é sua. De que o tempo também pode ser seu. Mas, de modo geral, você não tem o seu tempo. Você apenas aceita, você acata, você balança a cabeça afirmativamente uma, duas, cinco, quinze vezes, você balança a cabeça até não poder mais, até ficar tonta, até pedir um dramin. Você pede dramin, toma um comprimido inteiro e começa a sentir sono. No ônibus, você não vê que ele enche até não poder mais, porque você está sentada perto da janela e tomou um dramin inteiro, mas seus amigos estão na praia, sem dramin e com a parcela de tempo deles para fazer o que bem entenderem. Quando chega ao centro da cidade, no ponto final, alguém tem que te balançar, alguém te sacode fortemente, mas o sono é tão grande que você mal consegue se levantar e, tropeçando, sai do ônibus. Onde estou?, é o que você pergunta, baixinho, bem baixinho, sussurrando, murmurando, você nem sabe se chegou a falar em voz alta ou se apenas pensou. Você não reconhece sua voz. Você só reconhece a rouquidão. Você sente os calos na garganta. Você sente os calos e as bolhas nos pés, são muitos. Onde estou mesmo? Então você se situa, a Rio Branco é inteira sua, se você quiser, o sono que você sente também é inteiro, e antes de chegar ao escritório onde terá muita faxina pra fazer, você para no Rei do Mate e toma outro dramin. Você gostou muito dessa sensação de dramin. Você resolve que, nesse sábado, onde as pessoas trabalham até uma da tarde, você decide que esse tempo será seu. Que você não vai mais balançar a cabeça afirmativamente vinte vezes. Se arrastando, você chega ao escritório, onde o movimento é bem menor aos sábados. Você também se sente bem menor que o tempo, aos sábados, aos domingos, todos os dias. Há quanto tempo mesmo você não tira férias? O sono é tão forte que você se deita numa das salas sem uso. Você se deita, não sem antes ligar o ar condicionado. Você não está nem aí para o que vão pensar. Você está andando para o que vão pensar. O sono é tão grande que você já nem pensa mais no que vão pensar. Seus amigos, na praia, devem estar esturricados. Você prefere ficar ali, você e seu dramin, porque ali não há risco de câncer de pele. 

Imagem: Magda Rebello
Texto: Vivian Pizzinga
Rodada 56

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