segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

FELICIDADE EXTREMA

FELICIDADE EXTREMA

Sinal de trânsito vermelho. Cor muito apropriada aos momentos atuais. Paro o carro automaticamente, atitude comum hoje em dia. Tudo marcado, cronometrado, filmado e esperado. Olho pelos retrovisores, conferir a calmaria é muito importante sempre. Nada deve ser alterado, nada pode fugir do modelo.  Na calçada, pessoas tristes, um cachorro perdido, lata de lixo cheia e...uma mulher. Cabelos molhados, beleza diferenciada pelo sorriso que ostenta, pelo semblante alegre que ousa demonstrar. Alerta vermelho! Uma mulher incomum, seu olhar denuncia o que não pode mais ser trancafiado. Calor tremendo e eu parado no sinal absolutamente tragado por aquela visão. Como prosseguir meu caminho? Como pensar em filas, banco, mercados, filhos? Como não querer identificar o desconhecido? Diante daquela mulher, exposta de forma tão gratuita, coisa tão difícil na atualidade, sinto uma espécie de vertigem. Vontade súbita de me sentir assim também. Alerta! Alerta e obediente, corrijo os rumos e vem um desejo de lançar-lhe um dardo no rosto. Um dardo longo, muito fino e envenenado mergulhando em sua ousada expressão. Na verdade, trata-se de um acinte à condição humana que cada um dos infelizes passantes carregam sem questionar. Impossível amalgamar a imagem da mulher ao entorno que deveria ser responsável por forjar os humanos fragilizados de nosso tempo. Algo precisa ser feito, mas o sinal está vermelho. E eu espero pacientemente que ele abra. Jogo o carro sobre a calçada e dou um fim rápido àquela expressão démodé de felicidade extrema.

Imagem Rudy Trindade
Texto Maria Emilia Algebaile
Rodada 56

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