terça-feira, 10 de março de 2015

Girls just wanna have fun



Mergulhei na piscina sem esperar nada. Segui o ímpeto da vontade, como me era habitual acontecer. Conter os impulsos era algo que eu sabia cada vez menos fazer. Mergulhei antes que alguém o fizesse, inaugurei a superfície plana, homogênea e horizontal que me indicava que mergulhar era preciso. As pessoas conversavam, bebiam seus drinks, um casal se pegava atrás de uma pilastra como se fosse a primeira vez de ambos (ou a primeira vez após décadas). Março era um mês que contemporizava seu calor, mas ainda estava quente, e a piscina enorme e azul, além de retangular, era um convite irrecusável à dispersão. Quando Girls Just Wanna Have Fun começou a tocar não tive mais dúvida. Caminhei vagarosamente em direção àquele retângulo-convite e, sem hesitar mais, coloquei meu corpo à disposição da água. Eu sabia que meu ato causaria curiosidade e perplexidade. E sabia também que havia pessoas como eu, capazes de refrear suas vontades apenas até um certo limite. Eu as esperava. Eu as queria comigo. Passei longo tempo submersa no azul, movimentando pernas e braços para avançar o mais rápido e mais profundamente que eu conseguisse. E quanto mais eu avançava, mais azul me esperava, eu não via o fim da piscina. Eu precisava continuar submersa o máximo de tempo possível, porque sabia que, quando emergisse, teria de responder a perguntas, teria de explicar meu comportamento, afinal, ainda era o início da festa. Os mergulhos inesperados, se ocorrem, são reservados para o final. Aquele era o papel da piscina: acolher um fim de festa onde já se esgotaram todas as possibilidades de euforia da noite. Mas as minhas possibilidades de euforia já haviam se esgotado. Eu estava naquela festa como um robô. Eu cumprimentaria as pessoas como um robô e conversaria como um robô, e meus afetos simulados seriam produtos automáticos de um robô que não sabe mais o que fazer de si e das mãos. Submersa e entregue aos caprichos do retângulo azul, eu esperava que alguém copiasse meu movimento, que outro mergulho se desse, que outro robô se dispusesse a fazer uma parceria comigo, que outro robô me reconhecesse como um igual, eu esperava companhia para que pudesse emergir encharcada mas de cabeça erguida, encharcada mas convicta, sem medo da plateia estupefata, sem receio de que me trouxessem uma toalha.

Imagem: Fernanda Lefèvre
Texto: Vivian Pizzinga
Rodada 58 

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