sábado, 25 de julho de 2015

MOLDURA



Todo dia essas linhas escuras se estendem de um lado a outro do que vejo.
Todo dia essas linhas atravessam o que posso enxergar e contemplar.
Todo dia elas se colocam de cima para baixo, cada vez mais grossas obstruindo mais e mais.
A cada instante elas fazem barreira à luz, elas arrancam o brilho que entra, elas esbarram o que vem, elas cortam o que vejo.

Que essas linhas sumam!
É o que farei sem deixar para depois.
Quero que o cristalino e o transparente me mostrem o que está lá, para além daqui, o que pulsa caoticamente lá fora. Que o brilho intenso, o movimento, as cores, o contraste invadam aqui dentro, que tomem conta e que encham cada canto, cada lado, cada recanto.

Não basta!
Há o cheiro, o aroma, o ar, o vento, o som.
Que eu quebre o vidro, o estilhasse em incontáveis cacos e que eles explodam para o lá de tanta força.
Mesmo assim, ainda estou isolado pela moldura, os limites por onde entra tudo: o cheiro, o fedor o vento, o pé, o podre, o frio, a brisa, o quente, o úmido, o barulho, o escuro, o silêncio, a luz, a desordem, o que ordeno, o que me perco e me percebo. Este buraco: o vazio do furo nesta muralha árida e rude que me enclausura diariamente, horamente, instantemente, constantemente.

Que eu pule!
Que eu atravesse o furo!
E, assim, faço-me livre.
Atravesso a moldura e me jógo, me jôgo, me pêrco, me pôrco, me cúbro, me sínto, me rólo, me póro, me ógo, me óvio, me ónho, me zógo, me gózo em tudo o que é.

Sinto-me descer...
O ar acaricia o mais profundo de mim.
Sinto-me des-ser...
E me desfaço.

...

Já faz tempo que não sonho mais com aquela subida forte e dura e alta e interminável e cada vez mais ingrime que me fazia despencar lá do alto ao perder o contato com o chão.

...

Não me é mais possível eliminar a moldura. Preciso do vazio que vem dela, que está nela entre um canto e outro

Maldita és tu que me permite observar e que me separa de tudo.
Maldita és tu que atravessa de lado a lado.
Maldita és tu que me isola e que me liga e que me lança e que me enoda e que me funda e que me contra  e que me centra e me descentra.
Maldita és tu que - sem ti, a queda seria inevitável.

Imagem: Magda Rebello
Texto: Gilson Beck
Rodada 61


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