segunda-feira, 20 de julho de 2015

REZA FORTE


Já fiz tudo quanto é reza: pra tirar urucubaca, pra trazer amor de volta, até pra fazer chover, mas é a primeira vez que me encomendam esse tipo de coisa. Pelas sete barbas dos camarões baratos, pelos vinte e cinco ossos do bicho da cara preta, pelo rabo da sereia, dessa vez acho que consigo tirar essa vontade de dar da Dona Maricotinha. Marido não pode mais com tamanho fogaréu e, em vez de se fartar no banquete que está posto, me pede pra transforma-lo em lanchinho de dieta. Eu tento. Pelas trinta e três espadas dos cavaleiros da Tavola Redonda, pela
Ponta da lança de São Jorge, pelos fundilhos cruzados de Dona Beja. Eu tento. Há umes não faço outra coisa senão tentar. Mas pelo jeito como Dona Maricotinha me olha, acho que vou abdicar das benzeduras e começar a visita-lá para entrarmos num bom entendimento. Pelas glândulas sexuais dos gnomos da floresta, pelo cheiro forte dos hormônios das antas no cio, pelo balé dos orangotangos antes do acasalamento, valei-me Dona Maricotinha!

Imagem: Magali Rios
Texto: Maria Emilia Algebaile
Rodada 61

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