quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A MÁQUINA DOS INFERNOS



A MÁQUINA DOS INFERNOS
Eu limpava a mesa, esfregava o chão, lavava a louça, tirava o pó dos móveis, só não podia chegar perto da máquina de escrever. Seu Joel era curto e grosso: “nunca encoste um fiapo na minha máquina! Se você mexer nela, está frita!” E eu sempre respeitei; na verdade, tinha mais medo que respeito. Se ele ficasse aborrecido comigo, poderia dispensar meus serviços e como é que eu ia arrumar outro trabalho como esse? Ele me dava casa, comida e até um salário. E eu cuidava dele e ele escrevia. Mas a carne é fraca e, pra uma pessoa, como eu, que não sabia ler nem escrever, aquela máquina posta no pedestal era que nem a santa no andor da procissão. Quem sabe ela não me fazia o milagre da multiplicação das letras dentro da minha cabeça? Eu gostava mesmo de ver Seu Joel ali batendo os dedos nas letras como se falasse um segredo pra alguém. Ao mesmo tempo, aquela indiscreta  contava tudinho no papel. Ah, Seu Joel não sabia que pra cada pouco de pó que eu limpava em volta daquela santinha, o dobro ia pra debaixo dela e aí , como eu não podia encostar “nem um fiapo!”, que dirá minha mão bruta, então eu ficava assoprando a poeira para que ficasse tudo limpo por baixo. Quando a mesa de vidro ficava bem limpinha, parecia até que a máquina flutuava! Ele não sabia, mas enquanto eu assoprava, ficava olhando olhos nos olhos aquelas letras lindinhas. E tinha uns números, que esses eu conhecia e tinha uns pontos, uns traços e as letras do meu nome, que esse eu também conhecia. Eu sabia assinar meu nome. E só. Mas aí, aconteceu. Um dia eu me sentei na cadeira do Seu Joel e fiquei cara a cara com a máquina de escrever. Se ela era uma máquina, eu ia conseguir lidar com ela. Eu mexia com aspirador, liquidificador, cafeteira e tudo mais que tinha na casa; então, não era uma máquina pequena que ia me meter medo não. Teve um dia que eu experimentei. Coloquei o papel e apertei as letrinhas. No começo, bem devagar. Depois, com um furor que fez uma perna de letra se emaranhar na outra e ficou tudo lá embolado e eu custei muito pra desencarafunchar tudo e colocar as coisas no lugar. Aí, me deu um suadouro e tive que beber um copo d’água pra me acalmar. Peguei um pano e fui limpar a máquina, tirei o papel e arrumei tudo direitinho. Se ele descobrisse, eu estaria frita. Mas aí, Seu Joel chegou algumas horas depois e não notou nada. Danou-se, eu pensei. E, daquele dia em diante, comecei a usar a máquina desesperadamente. Relaxei na comida, na limpeza da casa, Seu Joel me perguntava o que é que eu tinha e eu dizia.... “é nada não, coisa de mulher”. Curioso como todo homem aceita essa desculpa sem questionar. São uns acomodados. Seu Joel não era diferente. E quando ele saía, eu me refestelava toda naquelas letras. Eu copiava tudo. Copiava notícia de jornal, bula de remédio, receita de comida, oração, mas não sabia o que estava copiando. Eu pensava que usava a máquina, mas na verdade, ela é que me usava, aquela maldita, porque o que eu escrevia não era eu que pensava e muito menos era eu que lia. Eu paria as letras e elas se juntavam pra dizer coisas que eu jamais iria saber. Isso me indignava demais! Quando Seu Joel voltava, eu já tinha limpado e arrumado tudo e ele nem percebia. Era como se eu não tivesse feito nada, como se eu não tivesse vivido durante aquelas horas. Então, fui ficando com ódio, um ódio de mim e um ódio daquela máquina dos infernos. E, já que não podia falar nada para o Seu Joel, eu tinha que encontrar um jeito de não pegar mais naquela máquina. Em verdade, eu digo que minha vontade era quebrar tudinho, letra por letra, mas não podia encostar “um fiapo!”.... mas meu pecado já estava feito. Então, me veio a idéia e, num dia em que estava fritando umas batatas para o Seu Joel, enfiei as duas mãos na frigideira cheia de óleo quente. Gritei depois de algum tempo, caí por cima da frigideira e me queimei mais ainda. Ele me socorreu, me levou para o hospital porque queimou muito mesmo. Meus dedos ficaram esgruvinhados de verdade. E ele disse para o médico que ele não sabia por que eu tinha feito aquilo, que devia ser coisa de mulher e mais um monte de palavras que eu não compreendi direito. Já passaram umas semanas e eu estou aqui no hospital feliz da vida. Venci aquela amaldiçoada. Nunca mais vou  encostar na máquina de escrever.

Imagem: Rudy Trindade
Texto: Maria Emilia Algebaile
Rodada 62

Nenhum comentário:

Postar um comentário