domingo, 13 de novembro de 2016

HIMENÓPTEROS FOMICÍDEOS






Passei a tarde toda desenhando formigas. De todos os tamanhos, formatos e cores.
A formiga-de-bode, azulada e que não dá picadas. A de ferrão, bem preta e de corpo alongado. A correição, com suas enormes mandíbulas. A lava-pé ou malagueta, miúda, sem olhos. A chiadeira, também chamada formiga-de-bentinho ou feiticeira, de cor avermelhada e abdômen arredondado. A asteca, a mais gordinha de todas, talvez por viver comendo os frutos dos cacaueiros da Bahia. A violenta cabaça, que se alimenta de cupins bem maiores do que ela. A açucareira, tão miudinha e roxa, sempre catando doces nas nossas cozinhas. A argentina ou cuiabana, amarelada e de antenas longas. A quenquém ou caçadora, que voa com desenvoltura. A estranha formiga-leão, que parece uma libélula. E as nossas tão conhecidas saúva e tanajura, temidas na lavoura e apreciadas na farofa.
À noite, enquanto eu dormia, mansamente elas saíram dos cadernos. Tanajuras, saúvas, leões. Em largas filas bem ordenadas, desceram pelas pernas da mesa e tomaram todo o chão da sala. Quenquéns, argentinas, açucareiras, cabaças. Atravessaram a casa em marcha, até subir pelos pés da minha cama. Astecas, feiticeiras, malaguetas, correições, de ferrão, de bode. Lentamente devoraram o cobertor e me cobriram.   




Rodada nº 70
Imagem de Paulo Rezende
Texto de Cesar Cardoso

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