quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Sempre em linha reta





Mais complexo que meu medo de ficar, é esse desejo de ir em linha reta. Sem manuais, sem exemplos, sem saber por onde começar ou desviar, tracei um rumo e vou. Meu pai me disse que não é bem assim, que a terra é redonda, que a vida não basta, que os caminhos são armadilhas e labirintos. Meu pai me disse mas, como eu nunca acreditei nele, simplesmente ignorei. Ele também me disse que amou minha mãe, mas acho que se esqueceu de mostrar isso para ela. Ele também me disse que Elzinha não era flor que se cheirasse e eu o encontrei com o nariz entre as pernas dela lá nos fundos do quintal. Elzinha, minha primeira e última tentação. Eu vou em frente, nada me desvia do meu rumo. Não hei de ser nau perdida em mar bravio como o velho. Eu vou em frente. Sem curvas, sem pensar em alternativas, sem vontade de recomeçar. Ele me avisou rapaz, faça isso com sua vida não... Mas ele queria que eu fizesse com a minha vida o que ele fez com a dele? Ele me disse que andar na montanha russa é melhor que ficar quarando ao sol. Morcegos são mais interessantes que lagartos. Ele me disse muita coisa, mas sigo em frente. Pode ser que nos encontremos um dia, embora nossas vidas paralelas nos levem a pontos de chegada tão distantes...porque, no fim, tanto faz.


Imagem: Paulo de Resende
Texto: Maria Emilia Algebaile
Rodada 71

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