domingo, 18 de dezembro de 2016

Terra Batida


Mônica morreu num dia de julho.
Era a primeira vez que eu voltava à casa e pedi para descer uns quilômetros atrás.
– Vai ficar olhando os moinhos de vento, Dom Quixote?
– Ou ao menos pedir para que olhem por mim.
Quem falava era minha atual mulher. Ela não entenderia. Eu mesmo não saberia bem explicar. Desci do carro e ela foi embora com a nossa filha. Vi quando a menina colocou a cabeça para fora:
– Tchau, papai!
Se eu pudesse, antes de vir aqui pararia no bar da Vila. Para a bebida me apagar um pouco. Mas estava longe.
Mônica morreu grávida. E dessa lembrança a cachaça não me livraria.
Eu calçava um tênis Nike de correr no asfalto, leve mas estranho à paisagem. Descalcei, amarrei os cadarços um ao outro e pendurei no ombro. Ventava muito e esse era todo o ruído que eu podia ouvir. Dois minutos depois o carro com as duas desapareceu e ninguém mais passaria por aquela estrada naquele dia, naquele ano, naquela vida. Queria ter ido ao bar da Vila. Deveria.
As pedras no chão machucavam meu pé. Dava para sentir o molhado da terra. Ficamos ali, irmanados, ela e eu, como muitos anos atrás fazíamos sempre. Aquela terra recebeu tudo que um dia me fora importante. Comeu as vísceras do primeiro bezerro que não deixei matarem e morreu de velhice, bebeu litros e litros de minha urina, tragou sem reclamar os jatos de esperma que ela dividia apenas com o tronco do umbuzeiro que me protegia dos olhos e do sol, engoliu o vômito de minha embriaguez quando aprendi a beber. Foi essa terra que comeu Seu Zózimo e minha mãe. Por isso desci antes e preferi conversar com minhas pegadas molhadas. Essa terra comeu Mônica, que era a minha mulher, e o filho que nunca foi nomeado. Minha sola grossa lixava a terra e eu me arrependia de não ter bebido.
Foi no bar da Vila que descobri uma de minhas verdades. Em casa perguntei à mãe:
– Eu sou filho do Seu Zózimo?
Meu pai – ou quem eu achava ser meu pai mas, naquele dia, descobri ser apenas o homem que me emprestara o sobrenome - já havia sumido na capital há anos. Ainda assim ela sentiu vergonha ao confirmar: “sim”. Eu saí correndo para além do curral, o dia estava seco e empoeirado, sujava a barra da calça, formava uma nuvem atrás de mim, eu engolia essa mesma terra onde hoje piso de modo que um dia ela já foi parte do meu pulmão, do meu estômago, do fio de caminho de lesma que ficou na minha cara quando a primeira lágrima escorreu.
Foi neste chão que me casei. Eu cursara toda a faculdade de engenharia no sul, mas voltara porque num desvio desta estrada morava a Mônica. Eu amava a Mônica desde que me dava por gente, desde que tinha lembrança. Por isso voltei. Porque ela havia passado seis anos me esperando. E isso era amor de verdade. Amor existe na espera. E eu não sabia o que era o amor sem a Mônica. Eu voltei para casar e logo em seguida tive de viajar novamente, últimas provas, entrega da monografia, meses no sul. Péssima escolha.
Eu também não sabia o que era alegria sem o bar. O bar da Vila. São poucas as propriedades por aqui. Quatro homens são donos de tudo o que a vista acolhe. Inclusive da vida dos peões. E peão fica xucro sem festa, sem mulher, sem beber. Por isso, uns oito quilômetros entrando pela estrada, abriram uma clareira e montaram a vila. Tinha fumo de corda, café fresco, farinha de trigo. Com o tempo começou a morar gente, umas duas famílias que viviam de abastecer a peãozada da região. Mas o que mais dava dinheiro era o bar. Era onde se agrupava todo mundo. Eu nunca soube porque gostava tanto daquilo. Talvez por um único motivo: lá não importava se eu era filho do homem que me dera o sobrenome que carrego – e de toda essa terra por onde agora caminho – ou do Seu Zózimo, cujo sangue realmente me irrigava.
O bar.
A Mônica.
Ela tinha um olho claro, como o da minha mulher de agora. Mas a natureza tinha sido tinhosa. Deu para Mônica uma boca gigantesca e uma pinta no lado direito. Boca de levantar desejo. E um fogo que correspondia. Mesmo grávida não descansava.
Nunca acharam o corpo dela. Tem quem pense que pode estar viva. Eu desconverso quando falam perto de mim, faço que não estou, mudo de prosa. O pessoal logo entende. Quando não entendem saio de perto e deixo falarem. Aqui viveu Mônica e meu filho. Se fosse menino iria se chamar Bento. Se menina, Beatriz. Foi tudo nessa terra aqui. Nunca acharam o corpo deles. Aqui viveu Mônica e um bebê que ela carregou na barriga por oito meses até o dia em que descobri, no bar, que eu não era o verdadeiro pai.
Texto: Pedro Silva
Imagem: Lucia Dias
Rodada 71

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