domingo, 5 de fevereiro de 2017

LIFE ON DEMAND




Nas rodoviárias dezenas de messias descendo dos ônibus num empurra-empurra. Nos aeroportos centenas de messias saindo dos voos lotados e aguardando o milagre da liberação na alfândega. Nos portos milhares de messias nem esperam os navios atracarem, já se atiram ao mar e caminham por sobre as águas até a terra firme e prometida. 
Não precisamos de cidadania, título de eleitor, identidade. Nossa identidade é o tênis que usamos, o carro que compramos. Viver é gastar no cartão. Amor, eu sou um novo homem, solicitei pra hoje mesmo o programa completo pela Central de Atendimento.
E chegamos. Ah! Grandes corporações escrevem poesia. Indústrias das armas dançam balé. Cartéis de drogas tocam sonatas. Das maternidades saem bebês-propaganda. Os discursos se falam sem precisar de bocas, faringes, cordas vocais, ar nos pulmões. O silêncio foi proibido em todo o território internacional e as letras S foram transformadas em cãezinhos para crianças pela reengenharia genética.   Todos os fatos são pardos. Que importância têm as coisas? Chips subcutâneos nos fazem reproduzir, escolhem a programação do compceltv, autorizam amores, bombardeiam países. O fundamentalismo ao alcance de todos. A catatonia em três lições. Os dez pixels para a felicidade.
Liberdade, liberdade, abre as patas sobre nós.




Rodada 72 invertida

Texto: Cesar Cardoso 
Imagem: Lucia Dias

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