sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

TÃO


Não desliga. Preciso te falar isto ao menos desta vez. Sabe aquela noite em que nos sentamos ao lado no cinema? Quis segurar sua mão e dizer o quanto éramos... acho que especiais. Mas, sabe, isto não seria uma declaração de amor qualquer, nem seria declaração de nada, somente confissão. Éramos especiais naquela época. Acho que por conta de nossos gostos, das nossas muitas faces, dos nossos gestos. Como? Repete que o som tá baixo. Especiais para quem? Acho que um para o outro. Talvez para quem estivesse por perto. Você nunca sentiu isto? Poxa, é triste pensar assim. Algo tão forte. E somente eu senti. Por que eu não disse antes? Porque não deu tempo. Andava cansado. Andava pouco. Mal pude contar agora. Sei lá, a timidez.

Como? O que espero de você? Acho que o direito de ser especial. Não tá bom? Calma, não é cobrança. Respira. Não, não quero mudar nada. Só te dizer que queria ter dormido no seu colo nos últimos anos. Sei que é muita coisa. Não chora. Não muda nada. O que? Ao fundo? É aquela música bonita da moça que diz que "quer dois filhos, um barco à velas e respostas" e que ouvimos na casa da minha mãe. Não, minha mãe nunca soube, deixa disso. Você era especial só para mim. Só para dentro.

Eu sei, não precisa repetir... ok, tá bom, juro que não toco mais neste assunto... combinado. Eu só tentei ficar aqui, só tentei ficar sozinho, sabe? Ficar bem. Mas é tão difícil, tão...

Eu sei que parece pretensão demais. Imagina, nunca quis ser seu dono, nem agora nem naquela época. É egoísta, mas é que dói tanto, sabe?  A ideia de que você é livre para fazer o que quiser (inclusive pra não me ver mais) é angustiante. E se um dia você escolher ir embora para sempre? É tão difícil.

Pois é, tentei te ligar outras vezes. Foi. Tento sempre. Sua mãe me disse que as horas que você passa em casa tem sido casa vez mais curtas, mais vazias. Que você tem dormido mal, murmurado pesadelos. Sabe, me preocupo, poxa. Só isto. No mais, foi você quem me ensinou a... tá bom... também não toco mais nisso. O "tema das coisas que você me ensinou". Assunto esgotado. O problema é que foram tantas...

Não precisa, estou bem com a grana daqui. Ok, ligo se precisar, juro. Mas o que tem faltado não é isso, tem faltado aquela palavra mágica, como a do Ali-babá que abria portas. As fechaduras não têm mais aceitado palavras geniais. Mas por que você pergunta isto? Realmente importa? Porque odeio que sintam pena de mim. Odeio isto, essa coisa disfarçada de amor. Eu não acabei. Eu tô só começando. E o que temos para diante não pode ser pequeno. Ou talvez não exista um deus.

Quando você mandou?! Nunca recebi! Vinha perfumada? Será que extraviou? Para com isto! Nunca! Nunca mentiria! Ok, eu sei. Mas você sabe que aquela voz do cara que cantava dizendo que o amanhã não existe sempre me emocionou. Por isso sou tão imediato.

Também não mais. Cansei daqueles livros que me entristeciam. Agora eu me choro nas minhas próprias palavras. Minhas e suas, se você quiser. Tá bom, eu te mando, mando sim.


Ontem passou uma moça ao meu lado que estava exatamente com aquele cheiro. Sim, o que você trouxe da viagem. Ela perfumou todo o saguão do prédio. Mas talvez só para mim aquele cheiro fizesse sentido. Sempre gostei de pequenos prazeres e lembrar aquilo que você significava ao meu nariz é das menores e maiores coisas que posso ter. Sua lembrança será sempre tão, tão...

Texto: Pedro Silva
Imagem: Carlos Brausz
Rodada 72 (fevereiro de 2017)

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