domingo, 19 de março de 2017

ALÉM DOS DOIS MUNDOS



A menina apreciava sentar-se na quina do salão. Refestelava-se sobre as almofadas e perdia-se a observar o mundo perverso, por isso não podia sair de casa. Não entendia bem os argumentos do pai e, menos ainda, não havia motivo para que permitissem que ficasse ali olhando pelas grades o mundo acontecendo, já que não podia estar do outro lado.
Na mesma intensidade de sua curiosidade, a luz que entrava no recinto era plena de vida. Já conhecia de cor o azul do turbante do cuidador de camelos, o cheiro das tâmaras maduras, o negro das burcas das mulheres que passavam sempre apressadas e caladas.
Um dia, ela viu. Viu e não acreditou em seus olhos tão meninos. Uma mulher andava pela rua bem devagar. Cabelos longos, soltos, balançavam para lá e para cá, num ritmo muito bonito, contrastando com o azul do céu. Suas roupas eram diferentes, usava calças compridas que deixavam marcadas as formas de seu corpo. Ela sorria e, às vezes, parecia bailar. Pôde acompanhar aquela imagem enquanto ela se movia da esquerda para a direita, enquadrada perfeitamente pela moldura das janelas gradeadas que separavam os dois mundos.
Apaixonou-se por aquela possibilidade. Não pensava em nada além da visão da mulher do outro lado do mundo. Imaginava-se lá fora e sentia um grande prazer percorrer seu corpo.
Em sua inocência, contou ao pai sua descoberta e as novas sensações que sentia. E foi assim que o homem mandou que fossem fechadas as janelas com tijolos pintados de azul.
Um azul que a menina identificou com aquele azul do céu no dia em que viu a mulher feliz de cabelos soltos na rua. Um azul pelo qual ela se dedicaria o resto de sua vida a vê-lo novamente.


Imagem: Glória Motta
Texto: Maria Emilia Algebaile
Rodada 73

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