sábado, 4 de março de 2017

BOCA DE LOBO

 Cheguei em casa sem camisa.

Seria Botafogo e Flamengo no Engenhão, começou o maior quebra pau. Eu que não sou de briga saí correndo, me escondi atrás de um poste e fiquei só vigiando. De repente, vem a torcida do Botafogo dobrando a curva. E eu trajado no manto. Não pensei duas vezes: tirei, enrolei, joguei na boca de lobo pra ninguém achar e me misturei com eles. Como era o hino mesmo? “Sou tricolor de coração...”, não, cacete, esse é do Fluminense.

E voltei pra casa sem a camisa.

Daí a vó logo me perguntou:

Nego, cadê sua roupa?
Tá suja, vó. Tirei porque tava fedendo.
Então me dá logo pra lavar.

E eu não soube o que dizer. E ela ainda completou, acabando comigo:

Deu tanto trabalho da última vez. Coarei duas vezes pra tirar a mancha do suvaco. Usei uma bacia só pra ela. Porque sei que você não pode com mancha...

 Então eu lembrei que a vó já fazia isso antes d’eu nascer.

Quando ela se mudou para cá não tinha a grade de vergalhão pra proteger da queda lá embaixo. A vó era linda e quando vinha para a laje esfregar roupa ficava um monte de marmanjo espiando de longe. O vô, mulato forte, baiano tranquilo, nem trinta anos completo, sabia que podia confiar na nega. Só gritava lá de dentro “entra que tá ventando, Palmira”. E a Palmira criou os oito filhos fazendo isso. Eram duzentas fraldas de uma vez, roupinha de bebê, roupinha de menino, roupinha que recebia de gente de fora. Depois começou a lavar roupa dos outros. E teve um tempo que ela ganhava mais dinheiro do que o vô. E ainda estendia a roupa da minha mãe e dos tios, deixava tudo branquinho.

A vó assistiu todos estes prédios sendo construídos. As crianças crescendo, o cabelo ficando mais ralo. Via aqui de cima, enquanto cuidava das cuecas sujas e do encardido dos uniformes. Tinha dia que ventava e a poeira das obras subia. E ela tinha de lavar tudo de novo. Duas bacias e um balde. Esfregava no primeiro, enxaguava no segundo e completava no terceiro.

A vó criou os oito meninos e mais os dezessete netinhos. Cuidava de criança do mesmo sangue dela e de mais um monte, filha de gente que trabalhava cedo e não tinha dinheiro pra creche.

Depois que o vô morreu ela ainda viu a mata diminuir e mais casinhas sendo construídas. Tudo sem nunca deixar de usar sabão em pedra na barra da calça jeans. Ela estava aqui quando ficou perigoso. Cinquenta anos de vida mas dizem que nem parecia. Braço forte da viúva espantava os engraçadinhos que pensavam em tomar o lugar do vô. Ela viu o neto entrar na faculdade e lavou a camisa que eu usei no primeiro emprego. Na borda da laje a vó plantou coentro e pimenta. Recolheu pipa caída e gritou forte quando um moleque soltou um rojão quase na cara dela.

Eu voltei do jogo sem camisa e a corda já estava cheia de roupinha de bebê. Dos filhos do Aldo, a terceira geração de macacãozinho que a dona Palmira ajudava a cuidar, sem nunca reclamar da mão cortada ou de dor na coluna.

A vó ensaboou todos os meus jeans, minhas camisas da escola, as meias brancas.

E eu peguei o manto lavado pela vó e joguei num bueiro no Engenho de Dentro.


Porra, que merda que eu fiz?



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Imagem: Rudy Trindade
Texto: Pedro Silva
Rodada 73

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