domingo, 4 de junho de 2017

Amor





Não bastasse aquele dia cinzento, não bastasse o entardecer que sempre me traz nostalgia, não bastasse o cheiros daquelas flores e folhagens entranhados em meu espírito, eu ainda teria que encarar a cadeira da vó ali no canto da sala como sempre esteve? Só que sem ela, sem colo, sem histórias longas ou curtas, sem doces de amendoim nem maçã raspadinha... Uma almofada delicadamente bordada preenchia o vazio. A luz medrosa iluminava o suficiente para que o importante pudesse ser valorizado. E eu nunca mais ouviria sua voz baixinha rezando a Ave-Maria às seis da tarde. Olhei firmemente para a cadeira e me perguntei "por quê?" Nem tive tempo de acabar de fechar os olhos e a resposta brotou de dentro de mim. Ela diria "porque está na hora". Eu sabia a resposta para esta e outras tantas perguntas. Isso ela também me ensinou. Quando conhecemos as pessoas a fundo, quando as amamos de verdade, sabemos bem como pensam e o que falam. Não precisaria de sua presença física para saber o que minha avó pensava e sentia. Naquele instante, percebi que uma parte dela estaria ali naquela cadeira amalgamada a uma parte minha desde e para sempre. Seríamos eternas. Fechei a janela com cuidado e fui para casa feliz com sua lembrança dentro de mim.


Rodada: 76
Imagem: Lucia Dias
Texto: Maria Emilia Algebaile

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