quinta-feira, 15 de junho de 2017

O ovo de Deus







A vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um caminho, o seguir de um simples rastro. Homem algum chegou a ser completamente ele mesmo; mas todos aspiram a sê-lo, obscuramente alguns, outros mais claramente, cada qual como pode. Todos levam consigo, até o fim, viscosidades e cascas de ovo de um mundo primitivo”. 
Hermann Hesse (Demian)

    Contam que o maluco do bairro era um leitor voraz de Machado de Assis. Conhecia toda a obra do tal do bruxo, e subia e descia ladeiras repetindo que Capitu não traiu Bentinho.
     – Não traiu! Não traiu!
     Quem já o conhecia bem não estranhava. Ao cruzar com ele, fazia uma reverência respeitosa e apenas confirmava:
     – Não, não traiu.
     O maluco ficava feliz. E seguia o seu caminho, casmurro, forrado de Esaú e de Jacó, elogiando Quincas Borba e repetindo trechos do Alienista, onde encontrara o seu personagem preferido:
     – Deus engendrou um ovo, o ovo engendrou a espada, a espada engendrou Davi, Davi engendrou a púrpura, a púrpura engendrou o duque, o duque engendrou o marquês, o marquês engendrou o conde, que sou eu – ele repetia.
     – Ele quem? –perguntei, no dia em que o conheci.
     – Aquele, o lunático do Machado.
     – Que Machado?
     – De Assis.
     – Ele era lunático?
     – Não. O personagem que era. Não leu “O alienista”?
     – Não.
     – Aquele, sim, não dizia coisa com coisa?
     – O Machado?
     – Não. O personagem.
     – Sim. Mas o Machado dizia, não é?
     – O ovo de Deus que engendrou Davi... Compreende?
     – Acho que sim.

     – Isso não importa. Mas não esqueça: o segredo e o mistério não estão na vida, e sim  no ovo.


Rodada: 76
Imagem: Márcia Magda
Texto: Luis Pimentel

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