segunda-feira, 21 de maio de 2018

Feirar




Se pudesse, não voltava nunca mais para lá. O cheiro, o barulho, as pessoas. Aquelas notas amassadas de dinheiro, o contar de moedas, o dia passando tão lento, os gritos de sempre. Tudo me enojava. Não por causa dos cadáveres de bichos mortos pendurados. Não pela sujeira, pelas gotas de sangue coagulado espalhadas pelos cantos. Não me tirava o chão o meu pai dizendo, sem disfarçar ironia, que aquilo tudo seria meu. Aquilo tudo o que? Essa tristeza de depenar galinhas? Esse falso sorriso que sou obrigada a vender junto às carcaças que seriam cozidas, assadas ou fritas? Aquilo tudo o que? Eu me perguntava, mas não conseguia dizer: hoje eu não vou. Não vou nunca mais. Vou aceitar aquela bolsa de estudos, vou me pendurar em algum trapézio de algum circo que venha me resgatar, vou aceitar o noivado com um filho de fazendeiro qualquer, nem que seja psicopata ocioso, qualquer coisa... menos voltar à venda. Tudo, menos voltar a ter a mão do próprio irmão do meu pai a me alisar quando ninguém estava olhando. A colocar o dedo indicador sobre a boca, com uma piscadela asquerosa, quando ia embora. Não sem antes passar também a mão na caixa registradora. E meu pai a me acusar, cadê o dinheiro que devia estar aqui? E eu, muda. Sem falar nada. Isso, sim, me fazia ficar sem chão. Perdida ali. Nesse mundo. Que não consigo escapar. Coragem nenhuma. De falar nada. Vergonha. De tudo. Vontade. De entrar no corpo desse felino e fugir daqui.

Rodada 82
Imagem: Marilene Nacaratti
Texto: Eliane França

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